Amar sem limites
“A não-monogamia é sobre o desejo de ser livre, descobrir coisas novas e estar juntas ao mesmo tempo” — MARIEH, funkeira
Logo após finalizar mais uma turnê na Europa, MARIEH, a funkeira e sapatona mais amada do Rio de Janeiro, volta à edição #03 da Revista Sapataria, dessa vez, para um papo íntimo e de peito aberto sobre amor, liberdade e não-monogamia. Longe dos tabus, a artista, que comemora o lançamento do tão aguardado “COCOTA”, seu segundo álbum de estúdio, e segue conquistando o público sáfico com suas letras recheadas de ousadia, colaborações especiais e muito tempero carioca.
Nessa nova entrevista, agora em um novo formato, a escorpiana abre o coração sobre a nova fase de vida, seu processo de amadurecimento e celebra, com orgulho, os aprendizados que herdou de outras mulheres de sua família
Você finalizou uma terceira turnê na Europa recentemente. Como foi a experiência?
MARIEH: “Foi super legal, super incrível. Uma coisa muito legal é ver meu público crescendo a cada ano. Nos meus primeiros shows, nem sempre eu lotava a casa de show sozinha; hoje, em todos os países que fui, as pessoas já sabiam cantar minhas músicas. Vi a venda de ingressos aumentar, as pistas encherem e a demanda crescer. E também foi lindo ver quem me acompanha desde o primeiro show voltar todo ano. Foi diferente também porque encontrei minha namorada lá na Europa. A gente passou o Dia dos Namorados em Paris, fazendo piquenique na torre. Foi super romântico”
Como você definiria essa fase apaixonada da sua vida?
MARIEH: “Eu sou parceira, dou flores, cuido, sou escorpiana, mas não sou uma pessoa dependente. Acho que isso me faz ficar apaixonada por mais tempo. Eu amo uma pessoa e sei que não dependo dela, nem ela de mim. Marina e eu nos conhecemos na época do lançamento de ‘0800’ com a Gavi, onde fizemos um sorteio de um date para quem fizesse o pré-save da música. Eu achei ela gata pra caramba e já cheguei atacando (risos). Ela desperta a minha melhor versão, me dá muita paz e me inspira muito”
Como você vive o amor hoje e como isso aparece na sua relação atual?
MARIEH: “Meu desejo nas relações é que a gente possa ser livre, descobrir coisas novas e estar juntas ao mesmo tempo. Um relacionamento não pode ser uma prisão, sabe? Meu relacionamento atual é aberto e não-monogâmico em outros sentidos, que não são só sobre ficar com outras pessoas, porque eu entendo a liberdade de outra forma. Por hora, decidimos que não vamos namorar outras pessoas ao mesmo tempo, mas se acontecer de ficarmos com outras mulheres em uma festa, eu jamais vou transformar isso em controle, por exemplo”
Como você construiu sua relação com a não-monogamia?
MARIEH: “Pra mim, não-monogamia é muito mais do que ficar com outras pessoas. Tem dez anos que eu pratico isso nos meus relacionamentos. Não é sobre sair ficando com todo mundo, é sobre liberdade e confiança. Eu venho de um lugar em que isso não era uma possibilidade. O sentimento era território, posse. Eu fui me desconstruindo muito nesses anos desde que aprendi que a gente não precisa negociar a liberdade o tempo todo”
Essa mudança na forma de se relacionar também mudou a forma como você se vê?
MARIEH: “Com certeza. Quando eu descobri que era sapatão, eu comecei a existir. Passei a me impor e transformei o que vivi como humilhação em poder. Cresci sentindo que não existia um lugar no mundo para mim. Hoje, faço da música uma reafirmação de quem sou”
Como sua identidade se relaciona com o funk que você faz?
MARIEH: “O funk é uma forma de me comunicar com outras meninas lésbicas que ainda não têm referência. Eu cresci sem referências e hoje faço um trabalho que a Marieh de 14 anos gostaria de ver. Esse é um ponto central do meu trabalho. Eu faço funk pensando em quem muitas vezes não tem acesso a museu, galeria, teatro, a representatividade na arte. E já recebi bastante retorno de outras jovens lésbicas por causa disso. Já vi gente dizendo que achava que não gostava de funk, mas na verdade só não tinha ouvido um funk que a representasse”
Que papel a representatividade lésbica tem no seu trabalho como funkeira?
MARIEH: “É fato que ainda faltam referências lésbicas no funk. A gente precisa de mais mulheres que falem sobre mulheres, que cantem sobre transar, beijar, amar e viver plenamente com outras. Ocupar esse lugar é muito importante, principalmente porque a gente precisa se afirmar com orgulho.