Aline Miranda Seco escreve um futuro de esperança para mulheres sáficas

Brasiliense criada em Cabo Frio (Rio de Janeiro), virginiana, lésbica, poeta, escritora, zineira e muito mais, Aline Miranda, autora de “Néctar 44” e idealizadora de “Correio do Amor de Outrora”, conversa com a Sapataria para a edição #02 da revista. Dentre recomendações literárias e uma pitada de bom humor, a artista conta sobre o processo de descoberta de sua sexualidade e os caminhos que a arte e a escrita lhe permitiram trilhar rumo a uma vida que, até pouco tempo atrás, sequer imaginava existir.

A escrita tornou-se parte da vida da artista a partir da chegada da máquina de escrever herdada da família, carinhosamente chamada Olívia. Entre uma poesia e outra, a escritora fez dos versos sua sessão de terapia e passou a elaborar emoções que, mais tarde, marcaram o processo de descoberta de sua lesbianidade: “Eu escrevia cartas achando que os meus sentimentos por outras garotas eram só de amizade. Descobri que era uma mulher lésbica na época da escola e não tinha nenhuma amiga lésbica com quem pudesse falar sobre isso. Só fui entender de verdade o que sentia aos 17 anos, quando conheci minha primeira namorada. Foi um processo muito confuso”.

Em um contexto marcado pela censura e pela ausência de vocabulário para se referir ao amor entre mulheres, Aline passou anos dentro do armário, tentando nomear o que sentia, enquanto a mídia da época tratava a lesbianidade de forma estigmatizada, associando o amor sáfico à dor e a finais trágicos: “Hoje vemos mulheres lésbicas nas novelas, nas séries, nos clubes de leitura… Mas, na minha juventude, esse tipo de coisa não existia. Isso faz muita diferença porque essas garotas não vivem essa descoberta tão sozinhas como eu vivi”.

Criar para viver

Foi então que, movida pela busca por finais felizes em uma sociedade marcada pela repressão, Aline encontrou na arte um caminho rumo a novas possibilidades: “Eu fui me reconhecendo nas músicas, poemas e livros sáficos que consumia. Mesmo sem entender tudo na época, eu sentia que aquilo falava de mim e me ajudava a entender meus sentimentos e outras possibilidades de existir”. Para além das obras, o acolhimento e pertencimento de si também vieram através do ativismo cultural e da sua participação em coletivos e eventos LGBTQIAPN+, onde abraçou o chamado de trazer à vida “o livro que eu queria ter lido quando eu era nova” e de oferecer a outras garotas a representatividade que não teve ao descobrir a própria identidade.

Em entrevista à Revista Sapataria, a artista defende que “o contato com outras histórias, por meio da arte, permite viver a lesbianidade com mais leveza” e aconselha jovens que se sentem perdidas no processo de autodescoberta a procurar força no coletivo: “É importante procurar oficinas, teatros, clubes de leitura, grupos online e espaços de mulheres sáficas, porque é nesses lugares que você encontra referências. E, claro, se a pessoa estiver passando por algum tipo de sofrimento, buscar terapia também pode ajudar”.

A história de Aline mostra que a arte é um caminho para transformar a ausência em novas possibilidades de existência e acredita que “continuar produzindo é imprescindível para que outras jovens se sintam representadas”. Para a escritora, a produção artística é um canal de expressão e de esperança, do qual se nutre a cada nova história que datilografa em seu primeiro grande amor, a Olívia.

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