Da erva ao amor entre mulheres, Mano Feu faz do funk paulista uma forma de ensinar
Cria de Campinas, produtora cultural e sapatona “desde a creche”, Mano Feu é um nome em ascensão no funk paulista. Inspirada em suas próprias experiências afetivas, a funkeira promete revolucionar a cena unindo educação e ativismo em produções envolventes, acompanhada do tempero especial da nossa planta favorita.
Dona dos hits “Linguadinha na XXT” e “Sou Sapatão”, a artista canta sua verdade e afirma que nasceu assim: “lésbica, ativa, sapatão até o fim”. Parte da sua essência, para ela “amar mulheres é a minha vida” e é desse amor que vem sua principal fonte de inspiração: “as primeiras músicas que escrevi foram sobre as minhas paixões. Escrever sempre foi terapia”.
A sua relação com a escrita é íntima e começou na adolescência, período em que era vítima de bullying e lesbofobia. Foi na poesia que a artista encontrou refúgio, e mais tarde a ganja entrou na sua vida com o mesmo papel, que ela vê como terapêutico: “Sofri muito na infância e adolescência. Foi então que quis me aproximar dos meninos que fumam maconha, mas eles me rejeitaram. Estava curiosa sobre os efeitos e o cheiro peculiar”.
Hoje, artista, não fuma mais do que uma flor por dia. Ela conta que já queimou muita maconha da ruim, mas que, conforme as responsabilidades aumentaram, a vida e a carreira pediram consciência sobre suas escolhas: “O prensado, ao invés de acalmar, deixa o cérebro travado por conta das misturas. A qualidade da planta é essencial, preciso de uma maconha que relaxe a mente, mas que não me derrube”.
No estúdio, Mano Feu diz que bola um religiosamente e produziu chapadérrima a faixa “Queimando do verde” ao lado de DJ Juninho Play, ainda no comecinho da carreira. A artista afirma que a plantinha é essencial no seu processo criativo e não fica sem porque “ajuda a abrir a mente e colocar as ideias pra acontecer” – Ideias essas florescem melhor em uma roda de mulheres sáficas das opressões e padrões impostos pela sociedade patriarcal.
Longe do machismo e da heteronormatividade que quase a fizeram desistir da carreira, a artista vê no poder feminino o combustível capaz de transformar a cena do funk. Ela conta que “tinha um ranço muito grande da reprodução machista, que estava sempre oprimindo as minas” e depois de engolir muito sapo de produtores, percebeu que seu lugar não era no funk tradicional.
Com a promessa de “jamais produzir um funk escroto igual esses caras”, hoje ela trabalha exclusivamente com mulheres do vale, movida pelo propósito de fortalecer a visibilidade sáfica na no funk – decisão que fortalece a rede de produtoras femininas independentes e que ela celebra com orgulho: “É um set só de mulheres. Eu tenho muita sorte, porque as pessoas acreditam muito em mim e sempre dão um pouquinho da arte deles pra somar com a minha. Fumar um faz parte do nosso processo criativo. Ajuda a abrir a mente e colocar as ideias pra acontecer”.
Há esperança no funk paulista
Sempre no corre, tudo o que Mano Feu lança é um recorte da sua história. Para espalhar sua palavra e manter a independência, a funkeira faz entregas como motoboy para ganhar uma grana extra na esperança de financiar projetos inspirados pelo impacto da erva em sua vida.
“Erva da Paz”, álbum no radar para 2026, que promete abordar temas brisados, nasce a partir do conhecimento sobre redução de danos que a funkeira adquiriu com o passar dos anos. Ela relembra crises diárias de ansiedade atravessadas pelo medo de abordagens policiais por fumar um e afirma que o acesso ao conhecimento pode proteger minorias sociais de abusos de autoridade “Na periferia, o acesso de uma mulher lésbica da favela à redução de danos é muito diferente do de uma lésbica de classe alta. A gente cresce sem saber que é usuária e não criminosa. Eu vivia em alerta”.
Para ela, a música é uma via pela qual as pessoas podem ter acesso ao conhecimento e proteger minorias sociais “O estigma em torno da maconha gera muito medo. Mas, quando você conhece seus direitos, tudo muda. Acredito que a gente precisa falar muito mais sobre o tema e a música é minha forma de educar”.
Por hora, enquanto encontra um jeito de tirar “Erva da Paz” do papel, a funkeira lança ainda esse ano, seu primeiro álbum, “Cores”, onde promete continuar cantando sua verdade e provando que existe amor (entre mulheres) em SP.


